Poema de Clarice Lispector – Ninguém me ama a ponto de ser Eu

Fiz o que era mais urgente: uma prece. 

Rezo para achar o meu verdadeiro caminho.

 Mas descobri que não me entrego totalmente à prece, 

parece-me que sei que o verdadeiro caminho é com dor. 

Há uma lei secreta e para mim incompreensível: 

só através do sofrimento se encontra a felicidade. 

Tenho medo de mim pois sou sempre apta a poder sofrer. 

Se eu não me amar estarei perdida — porque ninguém me ama a ponto de ser eu, de me ser. 

Tenho que me querer para dar alguma coisa a mim. 

Tenho que valer alguma coisa? 

Oh protegei-me de mim mesma, que me persigo. 

Valho qualquer coisa em relação aos outros — mas em relação a mim, sou nada. 

É tão bom ter a quem pedir. 

Nem me incomodo muito se eu não for totalmente atendida. 

Eu peço a Deus para eu ser mais bonita — 

e não é que meu olho faísca ao mesmo tempo que meus lábios parecem mais doces e cheios? 

Eu peço a Deus tudo o que eu quero e preciso.

 É o que me cabe. 

Ser ou não ser atendida — isso não me cabe a mim,

isto já é matéria-mágica que se me dá ou se retrai. 

Obstinada, eu rezo. 

Eu não tenho o poder. 

Tenho a prece.

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